Desde pequenos ouvimos, com
desdém, que o ser humano é um animal como qualquer outro, mas racional. No
entanto, no decorrer da vida esquecemos a primeira parte dessa definição,
focando apenas na segunda. A ideia de racionalidade nos remete a controle, a
domínio sobre nossas próprias ações e o que se encontra ao nosso redor. Infelizmente,
essa forma de pensar acabou por trazer sérias consequências ambientais.
Hoje, as cidades se encontram
adoecidas por historicamente ignorarem, em seu crescimento, a biodiversidade
local e seus processos, esquecendo o fato de também sermos animais, ou seja,
parte da fauna (e da vida) da Terra e que dependemos de modo imprescindível da
natureza para sobreviver, afinal, somos parte de processos ecossistêmicos do
planeta. No entanto, ainda predomina no ambiente urbano contemporâneo uma
concepção biocida de infraestrutura, ou seja, “inimiga da vida” (pois rompe os
sistemas ambientais), de modo que a natureza é vista como um empecilho para o
desenvolvimento, enquanto dela dependemos para a nossa sobrevivência e
qualidade de vida. Assim, é fundamental dotá-las de mais infraestrutura verde.
Infraestrutura verde urbana é uma
rede ecológica urbana que reestrutura a paisagem e mimetiza os processos
naturais de modo a manter ou restaurar as funções do ecossistema urbano,
oferecendo serviços ecossistêmicos no local[1].
Enfim, trata-se de uma rede sistematicamente integrada de espaços urbanos que
conserva ecossistemas e, ao mesmo tempo, beneficia as populações humanas,
adequando o ambiente urbano, por meio de técnicas e tecnologias biofílicas
(“amigas” da vida, do ambiente), como habitat à biodiversidade. Assim, permite
e estimula a gestão sustentável do uso, reuso e reciclagem da água e sua
purificação gradual (assim como do ar), a mitigação dos extremos climáticos e
do efeito ilhas de calor, a arborização e agricultura urbana, bem como a
implantação de telhados e paredes verdes. Ela é, também, a infraestrutura
disponibilizada pela esfera pública necessária para apoiar um estilo de vida
saudável, com parques urbanos, parques lineares e praças verdes arborizadas e
com jardins de chuva permeáveis, trilhas e calçamentos com pavimentação
permeável, corredores ou viadutos ecológicos e ciclovias, além do uso e
incentivo às formas renováveis de energia.
Uma cidade
verdadeiramente sustentável, portanto, não é aquela que simplesmente possui
eficiência energética, tampouco a que despende grandes volumes de produtos
químicos para purificar o esgoto pluvial e cloacal. Ela é aquela dotada de infraestrutura
verde, privilegiando a integração dos seus habitantes à biodiversidade no
ambiente urbano, de maneira que, por meio de sistemas integrados biofílicos,
seja possível o pleno funcionamento e fechamento dos ciclos dos processos
ecossistêmicos nas cidades. A promoção da infraestrutura verde nas cidades,
portanto, é fundamental para a manutenção da vida humana e, evidentemente, do
planeta, e não há nada mais inteligente para nós, “animais racionais”, do que lutar
por isso.
[1] HERZOG,
Cecilia Polacow. Cidades para todos:
(re)aprendendo a conviver com a natureza. Manuad/Inverde: Rio de Janeiro,
2013, p. 111.
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