quarta-feira, 26 de junho de 2013

CIDADES VERDADEIRAMENTE SUSTENTÁVEIS E A RAZÃO HUMANA



Desde pequenos ouvimos, com desdém, que o ser humano é um animal como qualquer outro, mas racional. No entanto, no decorrer da vida esquecemos a primeira parte dessa definição, focando apenas na segunda. A ideia de racionalidade nos remete a controle, a domínio sobre nossas próprias ações e o que se encontra ao nosso redor. Infelizmente, essa forma de pensar acabou por trazer sérias consequências ambientais.

Hoje, as cidades se encontram adoecidas por historicamente ignorarem, em seu crescimento, a biodiversidade local e seus processos, esquecendo o fato de também sermos animais, ou seja, parte da fauna (e da vida) da Terra e que dependemos de modo imprescindível da natureza para sobreviver, afinal, somos parte de processos ecossistêmicos do planeta. No entanto, ainda predomina no ambiente urbano contemporâneo uma concepção biocida de infraestrutura, ou seja, “inimiga da vida” (pois rompe os sistemas ambientais), de modo que a natureza é vista como um empecilho para o desenvolvimento, enquanto dela dependemos para a nossa sobrevivência e qualidade de vida. Assim, é fundamental dotá-las de mais infraestrutura verde.

Infraestrutura verde urbana é uma rede ecológica urbana que reestrutura a paisagem e mimetiza os processos naturais de modo a manter ou restaurar as funções do ecossistema urbano, oferecendo serviços ecossistêmicos no local[1]. Enfim, trata-se de uma rede sistematicamente integrada de espaços urbanos que conserva ecossistemas e, ao mesmo tempo, beneficia as populações humanas, adequando o ambiente urbano, por meio de técnicas e tecnologias biofílicas (“amigas” da vida, do ambiente), como habitat à biodiversidade. Assim, permite e estimula a gestão sustentável do uso, reuso e reciclagem da água e sua purificação gradual (assim como do ar), a mitigação dos extremos climáticos e do efeito ilhas de calor, a arborização e agricultura urbana, bem como a implantação de telhados e paredes verdes. Ela é, também, a infraestrutura disponibilizada pela esfera pública necessária para apoiar um estilo de vida saudável, com parques urbanos, parques lineares e praças verdes arborizadas e com jardins de chuva permeáveis, trilhas e calçamentos com pavimentação permeável, corredores ou viadutos ecológicos e ciclovias, além do uso e incentivo às formas renováveis de energia.
            
           Uma cidade verdadeiramente sustentável, portanto, não é aquela que simplesmente possui eficiência energética, tampouco a que despende grandes volumes de produtos químicos para purificar o esgoto pluvial e cloacal. Ela é aquela dotada de infraestrutura verde, privilegiando a integração dos seus habitantes à biodiversidade no ambiente urbano, de maneira que, por meio de sistemas integrados biofílicos, seja possível o pleno funcionamento e fechamento dos ciclos dos processos ecossistêmicos nas cidades. A promoção da infraestrutura verde nas cidades, portanto, é fundamental para a manutenção da vida humana e, evidentemente, do planeta, e não há nada mais inteligente para nós, “animais racionais”, do que lutar por isso.


[1] HERZOG, Cecilia Polacow. Cidades para todos: (re)aprendendo a conviver com a natureza. Manuad/Inverde: Rio de Janeiro, 2013, p. 111.

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